Thursday, December 16, 2010

AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE APAGAM



“_ Tá tudo tão diferente!” _ é a citação feita pela personagem João, aquando do seu regresso à ilha natal para se reencontrar com a amada dos seus sonhos e desejos da juventude, numa enternecedora e sumptuosa interpretação de Virgílio Teixeira, na curta metragem AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE APAGAM. É a constatação da realidade ilhéu, no campo material, _ a ilha, espaço físico rural que mudou no tempo _ e também no campo humano _ Maria, a amada que outrora lhe pedira jura de “ficar sempre juntos” e a quem ele prometera regressar para a levar consigo, rumo ao além-mar, onde se podia “ganhar dinheiro” e” fazer nova vida”. A vida da ilha rude, refém da pobreza, mas solidária, machista e, por vezes, sentimental; a vida feita de suor, sangue, dor e lágrimas, mergulhada no trabalho doméstico e no amanho da terra, de sol a sol, calcorreando os caminhos e veredas irregulares, pejados de perigos diversos, serpenteando do mar à serra, por entre vales e montanhas, onde os elementos da natureza se encontram e se fundem sob o olhar atónito do indígena, crente no poder da religião que perdoa o pecado desde que “com sofrimento e muita reza” e devoto do cerimonial da crendice supersticiosa capaz de esconjurar a calúnia e a inveja popular. A mesma gente que, submersa na sua ignorância simples a qual lhe tolhe o conhecimento do além horizonte, tem dificuldade em aceitar que os seus bem-queridos, embora desconhecendo “as coisas da vida”, se apaixonem.

AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE APAGAM é a curta-metragem madeirense, feita na Madeira, por e com uma equipa de madeirenses, onde se divulga a paisagem local e muitos dos seus quadros típicos: a casa de colmo, os palheiros para o gado, o bordado madeira, as massarocas, a mó de pedra, o bolo do caco, as bilhas do leite, a canga, os poios de couves arrumados nos socalcos de basalto, a boceta do rapé, … É ainda a recordação da revolta do leite e das prisões feitas no Faial e “outras revoltas”, com a ilha, de olhos grudados no horizonte marítimo, a deixar-se abraçar pelo mar que a fecunda e, depois, vai parir no calhau o grito da nova liberdade, enquanto aguarda o regresso do amor proibido.


AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE APAGAM é a curta-metragem, em pouco mais de trinta minutos, rodada a preto e branco, na trama referente a 1936, e a cor, em 2007, “sem complicações nem confusões” com produção e realização de Dinarte Freitas e Eduardo Costa e sua equipa, tendo como principais intérpretes um leque de actores regionais _ Sofia Gouveia (Maria), Gilberto Rosa (João), Bruno Marote (António), Margarida Gouveia (Severina), Fernanda Pereira (Maria, octogenária), Virgílio Teixeira (João, octogenário), Fernando Melo, Tânia Freitas, entre outros, em papeis secundários, os quais, com o seu querer, boa vontade e empenho, deram corpo e alma ao argumento de Dinarte Freitas, com música de Jorge Salgueiro e voz de Vânia Fernandes, e teimam em provar que a Madeira tem recursos técnicos e humanos capazes da arte cinematográfica e ainda que é possível criar cinema de boa qualidade na Região, mau grado a ausência de apoios locais, mormente financeiros, e da periclitante falta de divulgação através dos meios de comunicação social escrita, falada e televisionada.


AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE APAGAM é um poema à cultura madeirense e suas tradições populares. Pena que mentes, ditas “superiores” insistem em escamotear alguma cultura regional, de qualidade, sob a capa da justificação balofa da costumeira “falta de verbas” e, pior, receando que o produto final possa não satisfazer os anseios turísticos, quantas vezes pedantes, em detrimento de produtos populistas forasteiros, prenhes de interesses financeiros na ordem dos milhões, mas culturalmente mesquinhos.


AS MEMÓRIAS QUE NUNCA SE PAGAM é uma bela curta-metragem com interesse igualmente pedagógico na construção da sempre difícil sétima arte. Veja-se e, _ por que não? _ reveja-se. Assim queiramos…!

“_ Ah! Minha querida Madeira! Que saudades que eu tenho tuas!” _ na voz do incomparável e saudoso Virgílio Teixeira, é também a homenagem que o ilustre actor madeirense deixou à sua sempre querida ilha a qual, ainda mergulhada no espesso nevoeiro messiânico, teima em não descortinar o vergel onde desabrocham muitos dos seus melhores frutos.

2 Comments:

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